O reino vegetal, além de ser o maior reservatório de moléculas orgânicas conhecido, é um poderoso laboratório de síntese. Até hoje diversas moléculas com estrutura complexa dependem de síntese biológica, pois a síntese em laboratório não pode ser feita ou é economicamente inviável, como é o caso dos digitálicos, da pilocarpina ou dos esteróides.

Por isso plantas medicinais são usadas até hoje como matéria-prima para a fabricação de medicamentos.

As plantas medicinais têm sido um importante recurso terapêutico desde os primórdios da antigüidade até nossos dias. No passado, representavam a principal arma terapêutica conhecida.

Em todos os registros sobre médicos famosos da antigüidade, tais como Hipócrates, Avicena e Paracelcius, as plantas medicinais ocupavam lugar de destaque em suas práticas. A partir de plantas descritas e usadas pelo conhecimento popular, foram descobertos diversos medicamentos usados até hoje pela medicina.

Os salicilatos, por exemplo, foram descobertos através de estudos no Salgueiro Branco (Salix alba), que era usado pelos índios norte-americanos no tratamento de dor e febre. Já os digitálicos foram isolados da Dedaleira (Digitalis purpurea), usada por curandeiros europeus no tratamento de edemas.

O uso terapêutico de plantas medicinais é um dos traços mais característicos da espécie humana. É tão antigo quanto o Homo sapiens, e encontrado em praticamente todas as civilizações ou grupos culturais conhecidos. A etnobotânica brasileira é originária de várias tradições diferentes, criando um sistema heterogêneo de plantas medicinais.

A etnobotânica estuda a interação de comunidades humanas com o mundo vegetal, em suas dimensões antropológica, ecológica e botânica. Esses estudos são de grande importância na manutenção da cultura, além de combinar conhecimentos tradicionais e modernos, permitindo uma melhor investigação dessa flora ainda tão desconhecida e sua conservação e manejo sustentável.

O uso de plantas para fins terapêuticos está inserido em um contexto social e ecológico que vai moldá-lo, de modo que muitas das peculiaridades deste emprego não podem ser entendidas se não se levar em consideração fatores culturais envolvidos, além do ambiente físico onde ele ocorre.

Em sociedades tradicionais, a transmissão oral é o principal modo pelo qual o conhecimento é perpetuado. O conhecimento é transmitido em situações, o que faz que a transmissão entre gerações requeira contato intenso e prolongado dos membros mais velhos com os mais novos. Isto acontece normalmente em sociedades rurais ou indígenas, nas quais o aprendizado é feito pela socialização no interior do próprio grupo doméstico e de parentesco, sem necessidade de instituições mediadoras: crianças e jovens acompanham seus parentes na execução de tarefas cotidianas em ambientes físicos diversificados (excursões de coleta, trabalhos na lavoura, etc.), onde podem existir plantas com atividade terapêutica, observam os mais velhos ao cuidarem dos doentes, etc.

Esta ciência vem contribuindo para o conhecimento da biodiversidade das florestas tropicais, devido ao registro e resgate dos hábitos e usos de vários povos que possuem estreito vínculo com os recursos de fauna e flora. Compartilhar a informação com quem a gerou, e contribuir para a melhoria das condições de vida das populações estudadas, são um dos destinos desta nova etnociência.

O conhecimento gerado através do resgate do saber popular deve ser valorizado através de ações que viabilizem e garantam o uso desses recursos pela população. A produção do material científico deve ter uma utilidade maior do que parar nas prateleiras e livrarias, e sim ter um uso aplicado a favor do reconhecimento deste saber local, influenciando as políticas ambientais para este fim.

A etnociência tem como características principais, a multidisciplinaridade das ações e retorno do conhecimento produzido àqueles que o geram. Neste retorno confrontam-se e contemplam-se o conhecimento acadêmico e o conhecimento popular.

A etnobotânica colabora com:

– a valorização dos conhecimentos e as medicinas tradicionais das comunidades;

– a preservação da flora utilizando o conhecimento adquirido pela sua investigação científica;

– a ampliação do conhecimento sobre as propriedades úteis de espécies vegetais;

– subsídios para estudos étnicos, antropológicos, botânicos e ecológicos sobre os povos envolvidos na pesquisa;

– subsídios ao Poder Público no desenvolvimento de projetos sócio-econômicos, bem como ambientais.

As origens do sistema popular brasileiro de plantas medicinais são as seguintes:

Sistema etnofarmacológico europeu: Foi trazido com a colonização portuguesa e de outros povos europeus, e é mais forte no Sul do país. Este sistema possui muita influência das plantas de uso mundial e plantas européias, pois o Sul possui um clima mais frio, semelhante ao europeu, onde essas plantas já estavam adaptadas. É o caso da Erva Cidreira (Melissa officinalis), da Erva Doce (Pimpinella anisum), entre outras.

Sistema etnofarmacológico africano: Foi trazido com o tráfico de escravos para o Brasil, nos séculos XVI e XVII. Este sistema associa rituais religiosos ao uso de plantas medicinais, como é visto em diversas culturas primitivas. É mais encontrado no estado da Bahia. Através dos negros africanos incorporamos plantas como a Arruda (Ruta graveolens), e o Jambolão (Syzigium jambolanum).

Sistema etnofarmacológico indígena: Corresponde à herança do conhecimento de plantas medicinais dos indígenas brasileiros. Este sistema pode ser encontrado em praticamente todo o território nacional. Entre as plantas cujo uso aprendemos com os nossos índios, temos a Caapeba (Piper umbellatum), o Abajerú (Chrisobalanus icaco) e o Urucum (Bixa orellana).

Sistema etnofarmacológico oriental: Foi trazido junto com os imigrantes chineses e japoneses para o Brasil, no final do século passado e no início deste. É encontrado principalmente no estado de São Paulo. Os orientais trouxeram para o Brasil espécies como o Gengibre (Zingiber officinale), a Lichia (Litchi chinensis) e a Raiz Forte (Wassabia japonica). Outras plantas medicinais de origem oriental foram trazidas pelos portugueses durante suas navegações até a Ásia, como a Canela (Cinnamomum cassia) e o Cravo (Syzygium aromaticum). Estas espécies se tornaram mundialmente conhecidas por seu uso culinário.

Sistema etnofarmacológico amazônico:Este sistema deriva das características peculiares da flora da região, associada à absorção de conhecimentos indígenas pelo caboclo. Ele também decorre do isolamento cultural da Amazônia. Com isto, usa ervas específicas da região e possui uma linguagem própria. É o caso de plantas como o Guaraná (Paulinia cupana), a Copaíba (Copaifera officinalis) e a Fava de Tonca (Dipteryx odorata).

Sistema etnofarmacológico nordestino: A região Nordeste apresenta um clima e vegetação peculiares, e forte influência indígena e africana. Estes aspectos combinados às más condições socioeconômicas da região estimularam o surgimento de um sistema de plantas medicinais próprias. Como contribuição do sistema nordestino, temos plantas como a Aroeira (Schinus molle), a Catinga de Mulata (Tanacetum vulgare) e o Bamburral (Hyptis suaveolens).

Sistema científico internacional: Como resultado das pesquisas realizadas com plantas medicinais feitas em países europeus, foram introduzidas diversas plantas medicinais no mercado internacional, baseadas em seus efeitos farmacológicos. Entre estas temos o Ginkgo Biloba (Ginkgo biloba), o Hipérico (Hipericum perforatum) e a Echinácea (Echinacea purpurea).

O uso terapêutico de plantas medicinais ficou restrito à abordagem leiga desde o salto tecnológico da indústria farmacêutica ocorrido nas décadas de 50 e 60. Recentemente, as plantas medicinais consideradas medicamentos de segunda categoria, voltaram à voga com a comprovação de ações farmacológicas relevantes e de uma excelente relação de custo-benefício. Mas é sempre bom lembrar a importância de se utilizar a espécie correta para determinada enfermidade.

A Alemanha foi o país que investiu primeiro e saiu na frente nesse campo. Pesquisadores dessa área concluíram ser importante sistematizar e estudar as tradições populares do uso de plantas medicinais, como forma de ter uma estratégia para investigação e comprovação farmacológica.

Por isso um ramo da antropologia chamado etnofarmacologia (estudo da farmacologia popular de um determinado grupo cultural) tem ganhado importância cada vez maior para o desenvolvimento de novos medicamentos à base de plantas medicinais.

O Brasil tem um enorme potencial nesse campo. É fundamental que a comunidade médica assim como outros profissionais da área da saúde ligados às universidades atentem para esse potencial, para que possamos lançar mão dele.

É o momento de voltarmos nossos esforços para construir um conhecimento médico baseado em nossos valores e adequado às nossas necessidades, em vez de ficarmos atrelados a um modelo científico exclusivamente internacional. Para tanto devemos valorizar, estudar, validar e utilizar terapeuticamente nossas espécies, antes que outros o façam.

Fabiana Massoca Scarda & Maria Christina de Mello Amorozo
Luiz Cláudio Di Stasi
Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS)
www.aultimaarcadenoe.com
www.floramedicinal.com.br
www.rc.unesp.br

Fonte: Ambiente Brasil

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